Hoje levantei da cama bem cedinho. Ainda estava escuro (até porque aqui demora um pouco para amanhecer). Mas hoje parece que demorou mais ainda. Levantei com um objetivo traçado: ir à polícia solicitar meu Número de Identidad del Extranjero, que é justo o que tenho que conseguir antes do dia 04 de novembro (data que completará um mês da nossa chegada aqui na Espanha) para conseguir a renovaçao do visto de estudante por mais do que os três meses que me concederam aí no Brasil.
Em todos os lugares me disseram que eu deveria ir à polícia, porque só ela tem a competência de emitir esse tal NIE. Pois bem. Cheguei cedo porque sabia que teria mais gente com a mesma intençao que a minha. Mas nao pensei que fosse tanta gente. Quando cheguei, havia filas e filas com inúmeras pessoas em cada uma delas.
Perguntei a um policial onde eu poderia ficar e ele me indicou justo a maior de todas as filas. Caminhei até o final dela observando as pessoas que ali já estavam e todas tinham cara de estar esperando há muito tempo por serem chamadas. A placa que estava na frente do primeiro da fila dizia: “informaçao”. Peraí! Eu tinha que enfrentar aquilo tudo só por uma informaçao? Perguntei para algumas pessoas se no meu caso eu nao poderia ir para outra fila, mas me disseram que nao. Era ali mesmo que eu deveria ficar.
Mal sabia eu que teria que esperar, em pé, durante 3 horas – eu disse 3 horas – até que chegasse a minha vez de… entrar em outra fila?! Sim, exatamente isso. Fiquei três horas em pé, tentando sublimar o frio cortante que fazia no início da manha, para entrar em outra fila, só que do lado de dentro da comisaría de policia, que é como se chama delegacia aqui.
Na minha frente estava um jovem árabe com sua papelada para conseguir uma permissao para residir na Espanha. Quando entramos na comisaría e que nos demos conta de que todas as filas do lado de fora levavam para um mesmo lugar, ele se indignou: “Mas que país é esse em que estamos???”. Eu queria dizer a mesma coisa. Podíamos ter pego a fila menor. A que tinha só dez pessoas. A que durou menos de dez minutos. Porque todos fomos para o mesmo balcao.
Enfim, no balcao, depois de esperar mais sei lá quanto tempo (porque já nao conseguia mais raciocinar direito de tanta dor nas pernas, nos pés, nas costas e de tanto tremer de frio), um funcionário me atendeu muito prontamente: “seu passaporte, por favor”. Eu o entreguei. “Nao é aqui. Você tem que ir a este endereço”, disse o moço me entregando um papel em que constava o endereço de uma seçao governamental específica para estudantes de outro país.
Confesso que, nesse momento, tive vontade de chorar. Uma vontade quase incontrolável, porque sentia dores, sentia fome, sede, frio e… nao era ali que terminaria minha saga do NIE. Lembrei-me de que este é apenas um dos documentos que tenho que solicitar. Com ele, terei que pedir também um cartao de estudante e, depois, dar entrada numa papelada sem fim para que eu possa trabalhar legalmente aqui.
Mas pensei: “Vamos, Flávia, deixe de auto-piedade. A fome e a sede a gente mata comprando numa dessas máquinas que têm por aqui em que a gente poe uma moeda e compra de tudo um pouco. O cansaço a gente resolve no fim de semana. Vamos ao outro endereço”. Peguei o metro e fui ao segundo destino do dia.
Chegando lá, havia outros estudantes na mesma situaçao que eu, ou seja: perdidos. E um homem na porta dizendo que só entraríamos se tivéssemos senha. “Que senha?”, perguntou um deles. “A senha que se pede por telefone”, respondeu o funcionário. Só que uma das meninas já havia passado toda a semana ligando e o telefone do tal lugar só dava ocupado. Ela, naquele instante, ligou e mostrou para o cara: “Está vendo? Só dá ocupado! Nós nao vamos conseguir. Vamos ficar ilegais aqui. Nao é justo! Nós temos visto. Só queremos pedir sua prorrogaçao”. “Nao posso fazer nada”, respondeu. “A nao ser que voces venham aqui um dia da semana para tentar pegar uma das 70 senhas que distribuem por dia. Só que tem que chegar muito cedo ou dormir na fila, porque sempre vem muita gente”.
Pensei comigo: “tenho aqui na bolsa um endereço de uma oficina de extranjería onde podem me ajudar”. Pelo menos foi o que encontrei pela internet. Voltei para o metro e me dirigi a este outro endereço. Chegando lá, toda a minha esperança deu de cara com um portao fechado e uma placa de aluga-se. Botei meu rabinho entre as pernas e voltei para casa sem o bendito NIE.
Detalhe: ainda que eu durma na fila e pegue a senha, só estao marcando reunioes com a gente no prazo mínimo de um mes. Ou seja: vocês acreditam que eu tenha alguma chance de pedir para prorrogarem meu visto antes do dia 04 de novembro? Infelizmente, no momento, com as informaçoes que tenho, nao posso dizer que sim.
Sinceramente, eu, Flávia, nunca vi um negócio desses em toda a minha vida. Nem no Brasil, que é tudo tao lento, passei por uma coisa dessas. Na fila, uma mulher que estava perto de mim comentava com a amiga: “Mas a gente é imigrante no país deles, entao tem que ficar calado. Só que quando eles vao no nosso país, sao tratados como reis”. E eu que estou estudando no mestrado sobre a importancia de integrar o imigrante e de fazer com que ele se sinta integrado à sociedade espanhola… Sem comentários.
Mas vejamos pelo lado positivo das coisas:
- pude aproveitar o tempo na fila para ler grande parte de um excelente livro que ganhei da minha tia enquanto estava aí no Brasil. O livro, a propósito, se chama “Nunca desista de seus sonhos” (!). É um livro excelente, diga-se de passagem. Todos deveriam lê-lo;
- treinei minha capacidade de abstraçao e auto-controle para nao sair dos eixos;
- treinei minha paciência, que já vi que, morando na Espanha como imigrante, ela -a paciência – terá que ser minha grande companheira;
- andei por linhas de metro que ainda nao havia andado;
- comi sanduíche que se vende em máquina, dos que eu nunca tinha comido;
- vi que nao sou só eu que estou perdidíssima com essa burocracia daqui;
- enfim, cheguei em casa e ela – a casa – nunca havia estado tao aconchegante e protetora como hoje. A partir de entao, vou começar a olhá-la com outros olhos.