Lembra da história do NIE? Puxa vida, quando lembro do tanto que eu andei, pra cima e pra baixo nessa cidade, procurando o lugar exato para pedir minha identidade de estrangeiro, parece um sonho de barriga cheia. Mas é assim mesmo. Quando somos “de fora”, temos que adaptar às situações que o outro país nos impõe. Fazer o quê? Tratei de dar um jeito até que descobri que havia um telefone para pedir um horário em uma oficina de estrangeiros, onde deveria entregar toda a documentação que comprovasse que estava realmente estudando em Madrid. Fiz tudo o que precisava, me entregaram a carteirinha de identidade e fiquei tranqüila até o dia 3 de outubro, quando esta mesma carteirinha bonitinha venceu.
Menos mal que em julho atendi, na secretaria da universidade, a mãe de uma aluna da URJC que, por coincidência ou não, é chefe da polícia de imigração e serviços de deportação de Madrid. Meu chefe foi falar com ela e comentou que eu sou brasileira e que meu documento venceria no dia 3 de outubro. O fato é que eu havia ligado naquele mesmo telefone para pedir um horário para renovar o documento e me disseram que só tinha vaga para o dia 23 de outubro (20 dias em situação ilegal na España, com aquela adrenalina boa de sempre… Ai, ai, meu coração!).
Ela, muito educada, me deu o seu telefone e pediu pra que eu levasse a documentação para a sua secretária e, através do seu departamento, tramitaria toda a papelada para que renovassem minha estância para estudos o quanto antes. Entrei em contato com ela em agosto, como combinamos, e ela disse que estraria de férias em setembro. Mesmo assim, poderia passar pela delegacia onde ela trabalha e falar com a tal secretária.
Chegando lá, na primeira semana de setembro, a secretária de fato lembrava que uma certa Flávia passaria por ali, mas não sabia que papelada era essa que teria que receber. Resultado: ela acabou me passando a outro departamento, onde falei com outras pessoas até que uma delas entendeu exatamente o que eu queria. É que ali, naquela delegacia, não tramitam nada referente a estudantes estrangeiros. O que essa gentil funcionária fez foi entrar em contato com a delegacia certa e enviar meus papéis pelo correio para uma de suas amigas. Esta amiga me mandaria uma carta, dentro de um mês ou dois, para que eu passasse pela delegacia certa com o resto de documentos que me pedissem.
De fato, a carta chegou. Me pediam um seguro médico internacional. Por sorte, havia conversado com um colega do mestrado, que também é brasileiro, e ele me deu a dica de um seguro bom e barato. Corri lá na seguradora no dia seguinte, passei pela delegacia, entreguei uma cópia da apólice a uma das funcionárias que me disse: “agora é só esperar que vão enviar uma carta pra que você venha buscar sua carteira nova, se toda a documentação estiver correta”. Perguntei: “mas vocês não precisam colher minhas digitais e nem precisam de fotos para fazer essa carteira nova?”. Ela ficou me olhando, calada, pensativa, como que querendo dizer: “mas essa menina o que está querendo dizer?”. Sem mais nem menos, se retirou do balcão e, depois de alguns minutos, voltou com o envelope que a outra funcionária havia enviado pelo correio com a minha documentação. “Ah, é que você havia estado na delegacia errada e nos mandaram a documentação tem poucos dias.”
Já com tudo em dias, voltei pra casa naquela dúvida cruel: “será que vão conceder mais um ano de estância com tudo o que apresentei para comprovar que estou estudando?”. O jeito que tinha era esperar os dois meses seguintes até que me enviassem a resolução, outra vez pelo correio.
Menos mal que em menos de um mês, o envelope tão desejado chegou às minhas mãos trazendo a boa notícia: posso passar pela delegacia na segunda semana de novembro para pegar meu documento novo. Estou legal na Espanha outra vez! Graças a Deus!
O segredo é ter paciência. Bom, isso eu já sei. O negócio é colocar em prática esse conhecimento! Menos mal que não preciso pensar nessa novela do NIE até o ano que vem.