Ah, com certeza todas as pessoas que estudaram Jornalismo vão se lembrar da tal da Agenda-Setting, aquela teoria que diz que a agenda dos meios condiciona a opinião pública. Se não me falha a memória, essa teoria foi criada por McCombs e Shaw em 1968. Depois de muitas contestações e mudanças de paradigmas, a Agenda-Setting continua gerando frutos na área da Comunicação.
E quem diria que um belo dia eu, Flávia, pudesse ver cara-a-cara um desses teóricos! Está certo que não sou muito de Agenda-Setting (análise de conteúdo é bom, mas cansa!). No entanto, é impossível deixar de lado a oportunidade de conhecer o autor de tantos artigos e livros que tivemos que ler quando estávamos na graduação e agora outra vez, fazendo mestrado.
Segunda-feira, dia 22 de junho, a universidade onde estudo deu lugar à conferência “The Agenda-Setting Role of The Media”, com Maxwell McCombs. Cheguei antes para pegar um bom lugar e encontrei com uma das minhas professoras do mestrado conversando com um senhor com o cabelo todo branco, vestido com uma camisa branca, gravata e calça social marrom claro. De repente, minha professora me chama e diz: “Flávia, vem aqui. Quero que conheça McCombs”.
Numa fração de segundo, trilhões de coisas passaram pela minha cabeça. Lembrei do Edson Spentoff explicando a teoria da Agenda-Setting quando estávamos no quarto ano de Jornalismo; lembrei do Joãomar contando histórias de quando esteve com Mattelart, na França; pensei no privilégio de poder conhecer um teórico tão importante e, enquanto as pernas se endireitavam, fui tratando de levantar da cadeira onde estava sentada e caminhei em direção a ele. Segurei sua mão e, olhando pra baixo, sem saber muito bem o que dizer, saiu um “nice to meet you” super tímido. Ele me respondeu todo cordial e minha professora tratou de dizer quem eu era. Ele disse que era um prazer receber alunos do mestrado em sua conferência. Mal sabia ele que o prazer era inteiramente nosso!
A platéia era basicamente de professores. McCombs falou em inglês, de uma maneira muito clara e simples para que todos pudéssemos entender perfeitamente suas palavras. Foram 40min que passaram rapidíssimo e ele mesmo propôs que lhe fizéssemos perguntas sobre as dúvidas que tivéssemos. Bom, como sempre, a primera pergunta do debate custa sair, mas um aluno do doutorado quebrou o gelo e perguntou se ele acreditava que a teoria ainda era válida depois de tantos anos. Ele disse que já questiona alguns aspectos que considera superados, mas que a essência continua motivando novas pesquisas que mantêm viva a teoria.
“Alguém quer fazer alguma outra pergunta?” E eu pensava: “tenho que perguntar, tenho que pergutar, não posso perder essa oportunidade”. Enquanto isso, nenhum professor queria se arriscar a arranhar um pouco o inglês enferrujado para falar com o palestrante. “Já sei!”, pensei. E levantei a mão. Comentei que quando estávamos no mestrado, tivemos que ler muitos artigos seus (ele achou divertido!) e que, mesmo assim, não havia entendido qual é a diferença entre o segundo nível da Agenda-Setting e a teoria Framing. De maneira muito rápida e prática, me disse que em 99% dos casos, é a mesma coisa. Deu alguns exemplos de pesquisadores que tentam estabelecer diferenças entre os dois, mas que, no fim das contas, não conseguem nada mais que comprovar que são a mesma teoria.
Depois de mim, ninguém mais quis arriscar a fazer uma pergunta e deram por finalizada a conferência. Dois professores foram falar com McCombs e, enquando eu recolhia minhas coisas, ele mesmo, em pessoa, veio falar comigo para explicar com mais exemplos o que me havia respondido. Um amor de pessoa! E a gente pensa que os grandes teóricos são todos inacessíveis, né? Pode até ser que a maioria seja mesmo como a gente pensa, mas McCombs provou que ser um teórico conhecido mundialmente e ser simpático e humilde são coisas absolutamente compatíveis.