Perdendo a língua materna

Gradativamente, paulatinamente, ininterrompidamente, rapidamente e inevitavelmente. Assim é como percebo que vou perdendo meu idioma materno, este mesmo que eu sempre tratei de estudar, entender, interiorizar e defender. Meu querido português. Que pena!

Sempre fui crítica com os erros alheios, mas agora que cometo cada vez mais erros escrevendo e falando o meu idioma materno, parece que já não tenho elementos suficientes para criticar e corrigir a mim mesma.

Dos meus 29 anos (quase, quase 30), 25 foram bem vividos no Brasil, dedicados à plena convivência com meu primeiro idioma, que adoro. Porém, esses últimos quatro anos aqui na Espanha me fizeram perder quase toda a habilidade com a língua portuguesa.

Reconheço que a culpa é minha, 100%, sem dúvida. Como sabia que minha vinda a Madrid não seria uma breve aventura, quis dedicar bastante tempo ao estudo da língua espanhola, meu segundo idioma. Era o mínimo que eu poderia fazer, considerando que minhas intenções eram cursar um mestrado e um doutorado em espanhol. Intenções estas que se converteram em realidade, por sorte, e agora estou dando aula na universidade onde faço o doutorado. Aulas em espanhol, diga-se de passagem. Estou o tempo todo falando, pensando e sonhando em espanhol. Inevitável deixar o português de lado por um tempo.

Já sei que foi um erro, porque poderia ter conciliado ambos idiomas para manter minha língua materna em um nível elevado. Mas, espere um pouco… Quem diria que uma pessoa é capaz de perder seu idioma materno? Testifico: é possível.

Ah, uma coisa que eu adorava criticar: quando um brasileiro queria dizer algo em português, mas se confundia com outro idioma pelo fato de ter morado em outro país durante um tempo. Pois é. Agora eu mesma faço isso. Que horror!

Manter este blog em português é todo um desafio para mim, confesso. Por isso (e também por falta de tempo) deixei de publicar continuamente minhas experiências. Precisava (preciso, no presente) trocar o chip lingüístico (com trema, porque sou antiga) e pensar muito antes de escrever. Isso requer tempo, paciência e muitas consultas ao dicionário online da língua portuguesa. Ufff… Nunca pensei que chegaria a esse ponto. Mas aqui estou. O pior de tudo é que parece um caminho sem volta.

Meu marido e eu estivemos no Brasil agora em agosto e aproveitei o espaço que sobrava nas nossas malas para trazer todos os meus livros – em português, claro. Estou tentando revezar: leio um livro em espanhol, outro em português. Assim, quem sabe, posso recuperar meu idioma (quase) perdido.

Pensava que era impossível perder o idioma materno, mas, cada vez mais, vejo que isso pode ser verdade. Para que tal absurdo acontecimento não me surpreenda, me comprometo publicamente a continuar com este blog em português, sempre, para conservar meus queridos leitores brasileiros e para manter vivo este lindo idioma que NÃO QUERO PERDER!

Mil desculpas pelos meus erros, passados e futuros, porque tenho certeza que, sem perceber, acabarei escrevendo algo assim como “disculpa” em vez de “desculpa”, “femenino” em vez de “feminino”, “pregunta” em vez de “pergunta” e tantos outros portunhóis que fazem parte constante da minha vida de emigrante brasileira neste país ibérico.

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