Coisas que se aprendem dos 20 aos 30

Faltam poucas horas para que eu dobre a esquina dos 30, deixando atrás a meninice ainda típica dos vinte e poucos anos. Outro dia estava conversando com a minha cabeleireira – enquanto ela, de maneira desapiedada, cortava boa parte dos meus cachos ainda 100% castanhos – e ela me disse algo que me fez reviver mentalmente vários acontecimentos: “aprendi muito mais dos 20 aos 30 que durante todos os anos anteriores da minha vida”. Concordo plenamente. Claro que cada pessoa é um mundo, mas a experiência chega sempre quando tem que chegar (e da maneira que deve chegar).

Na semana passada encontrei com uma colega de trabalho na universidade e começamos a falar sobre as doenças típicas do século XXI. Não sei dizer como o assunto tomou tal direção, mas o fato é que a conversa se tornou muito mais emotiva do que ambas podíamos imaginar. Ela comentou que, quando tinha 14 anos, sua mãe teve câncer de mama e ela, tão jovem e imatura, não soube lidar com a situação. Com o tempo percebeu que atuou de maneira equivocada com a mãe e o arrependimento veio em forma de depressão. Pouco tempo depois, a progenitora padeceu de outro câncer (dessa vez de ovários) e ela, acreditando estar preparada para superar outra experiência tão parecida com a anteior, se deparou com a frustração de não saber exatamente o que fazer. “Menos mal”, disse, “que minha mãe está aqui comigo, viva, e tenho a oportunidade de pedir desculpas todos os dias pelos erros que cometi”.

Embora o depoimento da minha colega surgisse entre lágrimas, nas quais era fácil visualizar a depressão ainda presente em sua alma, meu coração estava sereno, o que me permitiu dar continuidade à conversação de uma maneira tranqüila. Não costumo sair por aí contando minha experiência pessoal com o câncer, porque sei que é um assunto delicado. Porém, quanto mais converso com as pessoas sobre isso, mais evidente se faz a necessidade de falar abertamente sobre esse problema, cada vez mais freqüente nas famílias do mundo inteiro.

Contei que também havia passado por uma experiência parecida com a minha mãe e que, embora eu tivesse 23 anos naquele momento, agi de forma imatura simplesmente por não conhecer o mundo que se apresentava diante dos meus olhos. Não estamos preparados para enfrentar um câncer, seja em nós mesmos ou em um familiar, assim como os médicos ainda não estão preparados para diagnosticá-lo, em alguns casos, antes de que seja tarde demais. Ela enxugou as lágrimas e, interessada em conhecer o desenvolvimento da história, me perguntou: “e sua mãe está bem?”. Respondi com toda a certeza: “sim, claro, onde quer que ela esteja”.

Quando estava fazendo mestrado, conheci meu atual orientador de doutorado numa aula sobre comunidades virtuais. Como é um tema que sempre me chamou a atenção, comentei com ele que queria escrever uma tese sobre isso. Foi quando ele se ofereceu para ser meu orientador. Conversamos sobre os diferentes tipos de comunidades que existem hoje em dia na internet e ele comentou: “acho muito interessante quando as pessoas montam grupos de ajuda através das comunidades virtuais”. Falávamos sobre o que agora estou pesquisando e que ocupará parte de um capítulo dessa tese que algum dia pretendo terminar: os famosos computer-mediated communication social support groups, ou simplesmente, grupos de ajuda online. Meu comentário surgiu de forma espontânea, como se fosse um pensamento em voz alta: “que pena que não participei de um grupo desses quando meus pais tiveram câncer”. Ele arregalou os olhos e me perguntou: “os dois?”. Balancei a cabeça afirmativamente.

Não sei se seria diferente, porque a aprendizagem vem da própria experiência. Com certeza esses grupos virtuais seriam para mim um apoio mais, além do psicodrama, que também me ajudou muito a ver as coisas como elas são e aceitá-las quando já não é possível lutar contra elas.  Muitas vezes, durante as reuniões do nosso antigo grupo psicodramático na Universidade Católica de Goiás (atual PUC-GO), meus depoimentos só serviam para que meus companheiros ficassem chocados e dissessem: “hoje não tenho nada pra contar; ouvindo o que a Flávia acaba de dizer, chego à conclusão de que meus problemas não são mais que bobagens”. Tantas vezes ouvi isso durante nossas reuniões semanais… Tantas vezes quis deixar de ser o centro das atenções, mas parecia que ninguém tinha um problema maior que o meu para cobrir um pouco meu protagonisto.

Aprendi a conviver com a compaixão dos meus amigos e colegas. Aprendi a ignorar o contínuo sentimento de impotência diante da realidade que teimava em tomar conta do meu dia-a-dia. Aprendi a manter o sorriso e a alegria diante da minha mãe e do meu pai quando minha alma se convertia em pedacinhos microscópicos. Aprendi que a vida é muito mais do que isso que a gente pensa que é. Aprendi que nossos pais vivem em nós quando já não estão materialmente presentes. Aprendi que a vida continua depois do câncer, seja como for. Tudo isso foi o que aprendi dos 20 aos 30 e que, de nenhuma outra forma seria possível aprender se não tivesse presenciado tais situações.

O que me espera dos 30 aos 40? O que proporcionarei à vida e ao mundo nesses próximos dez anos? Estou feliz de ter chegado onde cheguei. Orgulhosa não. Feliz. Porque o orgulho tem uma capacidade incrível de vedar nossos olhos quando temos que olhar para dentro de nós mesmos. Feliz de ter convivido com a melhor pessoa do mundo, minha mãe, durante mais de 20 anos nesta existência. Feliz de ter recuperado o contato com o meu pai antes de que ele ficasse doente. Feliz de ter estreitado os laços familiares com a minha irmã, depois de tudo. Feliz de poder falar de tudo isso agora sem nó na garganta e sem a menor dúvida de que fizemos tudo o que foi possível.

30 anos: aí vou eu!

Un pensamiento en “Coisas que se aprendem dos 20 aos 30

Responder

Introduce tus datos o haz clic en un icono para iniciar sesión:

Logo de WordPress.com

Estás comentando usando tu cuenta de WordPress.com. Cerrar sesión / Cambiar )

Imagen de Twitter

Estás comentando usando tu cuenta de Twitter. Cerrar sesión / Cambiar )

Foto de Facebook

Estás comentando usando tu cuenta de Facebook. Cerrar sesión / Cambiar )

Google+ photo

Estás comentando usando tu cuenta de Google+. Cerrar sesión / Cambiar )

Conectando a %s