O que ganhamos sendo vítimas?

Ontem, dia 11 de março de 2014, “comemoramos” o décimo aniversário da explosão de quatro trens na cidade de Madri. Naquele 11 de março de 2004 – conhecido como 11-M -, quase 200 pessoas foram vítimas mortais do pior atentado terrorista da Espanha, um país que durante muitos anos sofreu com os fortes ataques da banda terrorista ETA (que pelo visto não teve nada que ver com o 11-M).

Vendo a intensa cobertura midiática dos atos e homenagens em memória dos falecidos, só fui capaz de pensar nas consequências dessa triste saturação informativa. Entrevistaram os familiares dos falecidos e tantas outras pessoas que, embora não tenham perdido um conhecido, amigo ou familiar naquela ocasião, tinham algo que contar sobre o que estavam fazendo no momento em que aqueles trens explodiram antes de chegar à estação central de Atocha.

Observei com curiosidade quais eram as pessoas mais solicitadas pelos meios de comunicação e não me surpreendeu comprovar que na lista dos personagens mais imporantes do dia estavam os representantes das associações de vítimas e os políticos. O discurso das vítimas reforçava o vitimismo e o discurso paternalista dos políticos também o incentivava. No fim das contas, o dia de ontem ganhou a medalha dos pobres sofredores que não recebem e não vão receber nunca toda a atenção que merecem.

Não pude evitar pensar no que podemos ganhar sendo eternamente vítimas. Não digo que não seja necessário ou que se proíba recordar as barbáries do passado. Neste caso estou de acordo com Adorno e Horkheimer, autores da teoria crítica da comunicação: é preciso falar do passado funesto da humanidade para que não se repita. Porém, não creio que o monotema vitimista seja saudável. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

Está certo que pessoas que se levantam todos os dias e se vestem de vítimas conseguem chamar a atenção da sociedade e, se a insistência é tanta, podem até conseguir que os habitantes de um país inteiro também se vistam assim. Com isso, as associações de vítimas, por mais contraditório que pareça, se fortalecem graças à fraqueza dos próprios cidadãos.

Minha maneira de protestar contra essa situação foi publicar um tweet dizendo que a melhor forma de vencer o inimigo é demonstrando ser mais forte do que ele. Neste caso, demonstrando que somos capazes de superar os traumas do 11-M. Claro que o meu tweet não teve nenhum sucesso (salvo por um corajoso fotógrafo que me dedicou uma estrelinha de favorite). Porque o sucesso estava nas mensagens que apoiavam as vítimas e que também afirmavam que todos somos vítimas. Este é o discurso politicamente correto.

O problema de gritar aos quatro ventos todos os dias que somos vítimas é que nunca poderemos ser outra coisa além disso. Uma vítima de terrorismo procura obter um apoio externo, da sociedade, dos políticos; procura conseguir o reconhecimento de todos por ter sofrido, por estar sofrendo e por assumir de corpo e alma que continuará sofrendo a vida inteira, porque isso é ser vítima. Levantar a cabeça, sacudir a poeira e dar a volta por cima não é uma atitude de vítima. Superar os problemas não é uma atitude de vítima.

Os próximos 11 de março (ou de setembro) deveriam ser recordados e comentados com todo o respeito, sem espetáculos e sem discursos oportunistas. É preciso recordar, e não reviver. É preciso educar, e não saturar. É preciso superar, de uma vez por todas, porque um país de vítimas nunca será outra coisa além disso: um país de vítimas.

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2 pensamientos en “O que ganhamos sendo vítimas?

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