Reflexões sobre a cidadania espanhola aos judeus sefarditas

Ontem o jornal El Mundo publicou uma coluna de opinião escrita pelo historiador britânico Henry Kamen sobre os prováveis motivos da decisão do governo espanhol de conceder a dupla cidadania aos judeus sefarditas. O texto, que pode ser lido em espanhol, reúne uma série de reflexões pertinentes que merecem pelo menos uma breve resenha.

O artigo de Kamen começa com a lembrança daquele mês de março de 1492, quando o governo ordenou sem piedade a expulsão de todos os judeus da Espanha. Essa decisão foi comentada pelo atual ministro de justiça, Alberto Ruiz-Gallardón, que afirmou que tudo isso foi um grande erro histórico, com graves consequências seculares.

Uma possível correção desse erro, oferecendo a cidadania aos judeus descendentes dos que foram expulsos do território espanhol, chega tarde e acompanhada por várias polêmicas e perguntas sem respostas. Kamen, nas suas pesquisas e especulações, questiona o que existe por trás dessa proposta de retificar os grandes tropeços das antigas autoridades espanholas. E uma das respostas plausíveis, de acordo com o historiador, são os problemas econômicos da Espanha atual.

Mas o que tem a ver a precária economia espanhola com a recuperação dos judeus sefarditas? O argumento de Kamen é que os judeus dos Estados Unidos são um coletivo rico e poderoso, que poderia apoiar financeiramente a Espanha e ajudá-la a se levantar depois da grave queda provocada pela crise econômica. Não deixa de ser uma troca de favores em vez de um “generoso” aperto de mãos. Observando este lado da questão, fica difícil acreditar no sincero arrependimento do governo espanhol.

O historiador recorda outro erro histórico: dessa vez, a expulsão dos muçulmanos no século XVII. Isso porque a Espanha deu as costas a 50 mil judeus e a 300 mil muçulmanos, legítimos espanhóis que tinham a sua vida e sua história construídas nesse país ibérico. Kamen pergunta: por quê o governo espanhol ofereceu a dupla nacionalidade somente aos judeus sefarditas? Será porque expulsar 300 mil muçulmanos não foi um erro? Ou será porque os muçulmanos atuais não são um coletivo atraente e não oferecem nenhuma vantagem econômica para a Espanha?

Os erros históricos dos países que no passado representaram o poder da humanidade em forma de grandes impérios se acumulam e a correção de um deles em detrimento de outros tantos é, outra vez, um erro grave. Pior ainda se a correção não for pura, nem sincera. Kamen deixa claro que a Espanha ainda precisa indenizar os índios americanos, o povo berebere de Marrocos e um número significativo de holandeses. Porque a proposta de acolher os judeus sefarditas sem fazer nem um mísero comentário sobre os outros povos exilados é como botar mais lenha na fogueira da polêmica.

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