Sobrenomes sefarditas (judeu-espanhóis)

by J.L.G.

O interesse em conhecer os sobrenomes espanhóis de origem sefardita aumentou drasticamente nos últimos meses devido ao anúncio do governo da Espanha sobre a possibilidade de conceder a nacionalidade espanhola, conservando a própria nacionalidade, aos descendentes dos judeus que foram expulsos no final no século XV. Como conseqüência desse interesse, circulam pela Internet inúmeras listas com hipotéticos sobrenomes sefarditas.

Convém esclarecer que esse tipo de lista só poderia ser válida se contivesse os sobrenomes de origem univocamente hebraica ou as variações sofridas pelos sobrenomes espanhóis durante os últimos 500 anos nos lugares onde as comunidades sefarditas se estabeleceram depois da expulsão. Caso contrário, essas listas não revelam nada, pois o resto de sobrenomes espanhóis foram herdados pelos cristãos (“velhos” e “novos”), judeus e mouros de origem espanhola.

As informações que vinculam a origem sefardita a alguns tipos concretos de sobrenomes espanhóis tampouco são de confiança. Existe uma tendência generalizada a atribuir essa origem aos sobrenomes que se referem a objetos (Ballesta, Espada…), cores (Blanco, Rojo…) ou topônimos (Ávila, Toledo, Madrid…). Mas essa teoria não tem respaldo científico, porque tanto esse tipo de sobrenomes, quanto os patronímicos (García, Sánchez, Martínez…) ou os que se referem a ofícios (Tejero, Zapatero, Tejedor…), características físicas (Gordo, Delgado, Bermejo…), qualidades (Leal, Valiente, Bueno…) e lugares ou acidentes geográficos (Río, Laguna, Cerro, Cabezas, Llano…) se atribuíam sem critério às pessoas de qualquer religião. Além disso, era comum colocar os sobrenomes que se referem à igreja (Iglesia, Iglesias…) ou aos santos e invocações (San Martín, Santa Ana, Santa María…) às crianças abandonadas.

Considerando que a maioria dos judeus espanhóis, por diferentes motivos, foram adotando os sobrenomes que não eram hebraicos, determinar a origem sefardita de uma pessoa analisando exclusivamente os sobrenomes de origem espanhola é uma missão muito complicada, para não dizer impossível.

Porém, essa dificuldade poderia abrir as portas a um infinito número de possibilidades de conseguir a cidadania, porque com o resto de critérios que poderiam definir a origem sefardita, tampouco será fácil determiná-la com certeza absoluta por causa dos anos já passados (500 anos) e das vicissitudes dessas comunidades e seus indivíduos nos lugares onde se estabeleceram inicialmente e aonde emigraram depois. Essas circunstâncias poderiam significar que, na prática, se os critérios são estritos, quase ninguém vai conseguir a nacionalidade; se os critérios não são estritos, praticamente todas as pessoas de origem espanhola teriam direito à cidadania.

Além do mais, é preciso recordar os requisitos mínimos exigidos pelo governo da Espanha nos recentes processos de concessão massiva de residência legal aos estrangeiros que, com ou sem raízes espanholas, estavam ilegais na Espanha. Chegaram a aceitar como prova de residência durante o período estabelecido um simples recibo de luz, gás, aluguel, até mesmo um comprovante de ter sido atendido num centro de saúde, punido pela polícia ou por um órgão público, ter uma conta aberta, estar registrado na prefeitura, ter recebido ajuda de alguma obra de caridade… Qualquer estrangeiro que estivesse morando de forma ilegal na Espanha naquele momento pôde apresentar provas e legalizar a sua residência ou, em alguns casos, conseguir a cidadania.

Quando for confirmar a origem espanhola do seu sobrenome, pense que além da versão castelhana, muitos deles tem também sua versão regional (galega, valenciana, maiorquina, aragonesa, catalã, basca, etc.), mas todas elas são espanholas. Além disso, as versões castelhanas mais arcaicas, que é mais provável que os sefarditas expulsos tivessem, podem ser confundidas com as versões portuguesas atuais desses mesmos sobrenomes (dois exemplos: naquele momento, o castelhano ainda tinha o “ç” (Mendoça/Mendoza); o “s” e o “z” eram utilizados indistintamente (Quirós/Quiroz) para escrever o mesmo sobrenome).

Portanto, se você tiver certeza que o seu sobrenome é espanhol e tiver algum interesse em conseguir a cidadania espanhola, deveria pensar seriamente em começar a agilizar os trâmites para quando o prazo estiver aberto. Assim poderá evitar se sentir como o único “bobo” que não conseguiu a nacionalidade por achar que o governo ia estabelecer critérios “rigorosos” para conceder a cidadania…

Ler também: Portugal concederá cidadania a descendentes de judeus sefarditas

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24 pensamientos en “Sobrenomes sefarditas (judeu-espanhóis)

  1. Oi Flavia! Meu nome é Juliana Franco. Meu tataravô veio da Espanha para o Brasil no sec. XIX. Ele se chamava Francisco Rodriguez Franco. Um tio meu vai até o cartório da cidade onde ele morou aqui no Brasil para conseguir documentos. Esse tio está escrevendo um livro sobre a família. Minha família não tem nenhuma tradição judaica. Será que existe alguma possibilidade do meu tataravô ter serfadita?

    • Oi, Juliana! O que eu posso lhe dizer é que, se o seu tataravô foi da Espanha para o Brasil no século XIX, isso poderia indicar que os antepassados dele não foram expulsos da península ibérica quatro séculos antes (embora poderia ser descendente de judeus que se converteram ao catolicismo, porque a maioria dos espanhóis e dos seus descendentes estão mais ou menos nessa situação, sejam ou não conscientes disso). Além do mais, alguns judeus expulsos da Espanha no século XV retornaram alguns anos e séculos depois. Portanto, não descarte a possibilidade de que a sua origem seja sefardita. Na prática, vai ser impossível confirmar com certeza a origem sefardita de qualquer pessoa que peça a nacionalidade, seja de origem espanhola ou portuguesa. Por isso, se não fosse perder muito tempo e dinheiro, quando o prazo estiver aberto, creio que você deveria solicitar a cidadania. Quem sabe? Obrigada pela visita e pelo comentário. Passe por aqui quando quiser. :)

  2. Olá Flávia. Eu sou descendente de sefarditas (meu pai me dizia que meu tataravô veio da Turquia), e inclusive falo djudeoespanhyol, que aprendi com meu pai. Mas não sou judeu (no conceito religioso de ser judeu), nem meu pai o era, pois meu avô abandonou a religião, e casou com uma cristã, mas não abandonou a língua, que foi repassada até mim. Falando a língua mas sem ser judeu, será que eu tenho como conseguir a nacionalidade espanhola?

    • Olá, Gabriel! Realmente a Turquia e outros lugares do Império Otomano foram alguns dos destinos dos judeus espanhóis expulsos no século XV. Portanto, no seu caso, se você conseguir provar que o seu tataravô veio da Turquia e que você e a sua família falam djudeoespanhyol, creio que você não teria nenhum problema para conseguir a nacionalidade espanhola (conservando a sua) quando o prazo estiver aberto. Pensa que a cidadania seria concedida pela origem geográfica dos seus antepassados e não pela religião que você pratique. Boa sorte!

      • O pior é isso, eu não sei como provar, não tenho nenhuma prova, da origem dos meus tataravós, pra dizer a verdade nem sei o nome deles.

      • Não se preocupe, Gabriel. Do jeito que esse processo de nacionalização foi planejado e devido ao tempo transcorrido (500 anos), é quase impossível determinar com certeza absoluta a origem sefardita de uma pessoa. No seu caso, você tem a vantagem de conhecer o idioma ladino, que provavelmente será o único dado objetivo que o governo da Espanha poderá considerar como prova incondicional da origem sefardita. Além disso, quando estiver aberto o prazo, é provável que os critérios não sejam muito exigentes e que o seu caso seja um dos mais claros para obter a nacionalidade.

  3. Pingback: Sobrenomes espanhóis: origem e tipologias | Tomando novos rumos

  4. olá flávia. gostei da tua abordagem sobre o assunto, é a mais realista que eu li até o momento, pois, como voce colocou, é quase impossível comprovar, ainda mais considerando que essas pessoas tiveram que cortar os laços com os costumes e a religião judaica.
    acredito que a Espanha irá restringir um pouco sim, pois, caso contrário, mais da metade da América Latina invadiria o país! e bem se sabe que não é esse o objetivo deles. a motivação deles não é a justiça, se fosse, teriam tomado essa media há alguns séculos atrás, tiveram tempo suficiente pra isso, não concorda? o que os motiva são as vantagens economicas que o povo judaico pode traze-los nessa época de vacas magras, agora precisam da ajuda ($$) dos judeus, após te-los humilhados e expulsados há 500 anos atrás!
    obter a cidadania europeia é um sonho que eu tenho há muito tempo, pois gostaria muito de ir morar na Europa, tanto que até já considerei comprar um ‘casamento de fachada’.
    minhas origens europeias de antepassados distantes são bem óbvias, mas seriam mais portuguesas no caso, pois meu sobrenome é Lisboa e um outro na família é Coutinho. porém, tenho alguns sobrenomes de avós, tanto maternos quanto paternos que se encaixam na lista dos sefaraditas. mas apenas isso, não há maiores evidencias. pensei em fazer um teste de mapeamento genético para descobrir minhas origens e, se houver a comprovaçao, usa-lo como evidencia. voce acha que aceitariam como prova?

    • Olá, Vivian! Obrigada pelo comentário e pela consideração. Fico até sem jeito! Esses textos sobre os sobrenomes e origens sefarditas que publiquei aqui no blog são só a minha análise e interpretação pessoal sobre o tema, vendo as circunstâncias atuais da Espanha, claro. Sobre o mapeamento genético que você comenta, não sei muito bem o que dizer. Porém, se considera que, devido aos 2.000 anos de convivência de um grande número de judeus na Europa, praticamente o total dos habitantes da Espanha, de Portugal e das suas antigas colônias que sejam descendentes dos europeus portam alguma percentagem de gens de origem judia. Portanto, a genética teria o mesmo problema que os sobrenomes na hora de determinar que pessoas seriam descendentes dos judeus espanhóis e portugueses (porque quase toda a comunidade latino-americana com antepassados europeus o seria). E essa mesma dificuldade, assim como a problemática dos sobrenomes, se finalmente se considera válida como prova, poderia ser também uma oportunidade para conseguir a cidadania. Paciência e boa sorte!

  5. Olá ! Tudo bem. Me chamo Plinio Maurício Lisboa Costa. Tive uma tataravo uruguaia que guardava o Shabat chamava-se Gabriela minha sobrinha chama-se gabriela. Meu nome é em homenagem a meu avô ainda vivo Plínio Lisboa. Guardamos ainda alguns costumes como guardar o sabado. Somos cristãos, mas conversando com amigos judeus percebi muitos habitos nossos no cotidiano serem bastante judaicos. Gostaria de saber se Lisboa e Costa atestam alguma indicação sefaradita ou de “marrano” Cristão novo? Caso sendo como proceder a ter a cidadania portuguesa?

    • Olá, Plinio. O fato de ter qualquer sobrenome português ou espanhol não indica necessariamente que a pessoa seja descendente dos judeus sefarditas. Porém, não indicaria que a origem não fosse essa, porque a maioria dos judeus que moraram na península ibérica durante quase dois mil anos acabaram, por diferentes motivos, recebendo o mesmo tipo de sobrenome que os outros moradores cristãos (velhos e novos) ou muçulmanos. Com relação aos costumes que a sua tataravó conservava, isso sim poderia significar um indício evidente da origem judia dessa linhagem familiar. Portanto, na minha opinião, você poderia solicitar a cidadania quando o prazo estiver aberto, alegando essas tradições judias que você e a sua família observaram e ainda conservam. Convém ter acesso, se for possível, a documentos, declarações ou qualquer outro indício que comprove a existência dessas tradições na sua família. Se além disso você conseguisse que alguma comunidade judia do Brasil ou do Uruguai confirmasse oficialmente o que você comenta, é provável que as possibilidades de conseguir a cidadania fossem bem maiores. Mesmo assim, se você estiver muito interessado em conseguir a cidadania portuguesa, não deixe que solicitá-la. Vai ser muito difícil comprovar a origem sefardita quinhentos anos depois, já que qualquer descendente de português ou espanhol poderia ser descendente dos judeus sefarditas. No seu caso, você tem a vantagem de poder apresentar outro argumento relevante: as tradições da sua tataravó. Boa sorte!

  6. Pingback: Portugal concederá cidadania a descendentes de judeus sefarditas | Tomando novos rumos

  7. Ola Flavia, A minha avô tem o sobrenome Ormes Retamiro, em pesquisas que fiz até agora, o Ormes é derivado do nome Olmo e por consequencia, Retamiro vem do Retamero. Nesta pesquisa que fiz, percebi que existem pessoas com este sobrenome Olmo(sobrenome judeu) Retamero na Espanha atual. O que devo Fazer? Obrigado pela ajuda.

    • Olá, Tom. Desculpe a demora. :) Se você realmente tem certeza que Ormes deriva do nome Olmo e que Retamiro vem de Retamero, então os sobrenomes da sua avó seriam de origem espanhola. Olmo se refere a uma árvore, também chamada negral, nigral e negrillo, outros sobrenomes espanhóis. Retamero se refere ao oficio relativo à venda de retama, um tipo de arbusto usado para fogões de lenha. Qualquer sobrenome espanhol ou português poderia ser de origem sefardita. Dê uma olhada no novo texto que publicamos sobre esse assunto aqui no blog. Obrigada pela visita! Espero ter ajudado.

  8. Olâ flavia, eu tenho sobrenome Olivira depois que a lei entrar em vigor eu posso pedir cidadania, só pelo sobrenome porque meus antepasados não tem nacionalidade espanhola, mas minha familia oliveira é bahina e é um dos locais onde eles mais se consentraram

    • Olá, Márcio. O sobrenome Oliveira, assim como qualquer outro sobrenome de origem portuguesa ou espanhola, poderia ser também de origem sefardita. Dá uma olhadinha nos outros comentários para você ver que a dúvida é quase sempre a mesma e, por causa disso, imagino que será impossível comprovar a origem exata de cada sobrenome na hora de reconhecer a cidadania portuguesa ou espanhola. Obrigada pela visita!

      • mas não tem nenhuma forma, porque são mais de 400 anos que os judeus viera ao brasil então fica quase imposiveu provar minhas raizes e meu avô é bahiano e eu sei que fo um dos estados que eles se concentraram, obrigado pela compreenção.

  9. Exatamente, Márcio. São mais de 400 anos. Imagina! O único indício que você tem é o que você comenta: a Bahía foi um dos estados onde os sefarditas se concentraram. Não há nada específico. Não há provas concretas. A maioria das pessoas está na mesma situação. Convém solicitar a cidadania. Não perca a oportunidade. Quem sabe?

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