Os imperdíveis de Madri (em menos de cinco minutos)

Depois de vários anos morando em Madri, não havia escrito quase nada sobre essa bela e imensa cidade. Diante de tantas belezas e tantos lugares incríveis, fica difícil escolher os principais pontos turísticos para escrever um post sobre os imperdíveis de Madri.

Na semana passada, recebi um link do YouTube que me levou a um vídeo de duas turistas brasileiras que gravaram sua visita a Madri. Grata surpresa! As meninas têm uma capacidade invejável de descrever esse destino turístico, resumindo Madri em menos de cinco minutos.

No vídeo, você poderá conhecer os seguintes lugares:

  • Templo de Debod
  • Mercado de la Cebada
  • El Rastro
  • Centro de Arte Reina Sofía (para uma visita rápida, eu particularmente recomendaria o Museo del Prado)
  • Atocha
  • Parque del Retiro
  • Fuente de la Cibeles
  • Plaza de Toros
  • El Deseo (a produtora do Pedro Almodóvar)
  • Puerta del Sol
  • Plaza Mayor
  • Mercado de San Miguel
  • Palacio Real
  • Plaza de España

Sobre a Plaza de Toros, devo dizer que fiquei muito fã dessas duas turistas quando optaram por incluir a imagem dessa praça devido ao valor monumental do lugar em questão, mas não porque concordem com a triste tradição espanhola de torturar os toros e matá-los diante de uma multidão de fãs desse “esporte” nacional.

A parte gastronômica do vídeo é bastante escassa. Podemos ver as tostas, o merengue, as caracas (que não são um docinho típico espanhol, como dizem no vídeo) e o famoso tinto de verano, uma bebida refrescante de baixo teor alcoólico. As estrelas da gastronomia espanhola ficaram fora do vídeo: paella, tortilla española, jamón ibérico, chorizo, bocadillo de calamares

Vale a pena ver o vídeo. E, claro, vale muito a pena conhecer Madri!

Destino: Madri

Praça de Cibeles

Praça de Cibeles

Está pensando em tirar umas férias, fazer as malas e vir para a Europa? Então convém colocar Madri na sua lista de possíveis destinos turísticos. O governo espanhol quer divulgar a Comunidade de Madri e a sua capital para aumentar o número de estrangeiros que decidam visitar esta região da Espanha em 2014.

Puerta de Alcalá

Puerta de Alcalá

A campanha para ampliar a visibilidade madrilena conta com a participação de várias personalidades, como o chef David Muñoz, e de grandes instituições, como a “Asociación de Creadores de Moda Española” (ACME). O objetivo dessa mega operação é traçar estratégias de promoção internacional para colocar Madri na rota dos turistas interessados em conhecer a cultura, a gastronomia e as marcas espanholas.

A “Consejería de Turismo” da Comunidade de Madri quer enviar a sua mensagem aos mercados consolidados e também aos emergentes. Por isso, o calendário de aticidades inclui diversos países nos quais Madri pretende mostrar a sua cara e vender a sua marca como um dos principais destinos de férias na Europa. Agora em abril, a capital espanhola vai invadir Paris com as suas campanhas de marketing, que irão também a Londres e a Lisboa no mês que vem e em dezembro estarão em Nova York.

Entrada principal do Museu do Prado

Entrada principal do Museu do Prado

O Brasil não vai escapar das promoções madrilenas. Se você estiver em São Paulo, poderá entrar em contato com a capital espanhola tanto na Feira de Arte de São Paulo, quanto na Travelweek. E depois vai ter que deixar aqui no blog a sua opinião sobre a publicidade de Madri e dizer se esta cidade vai entrar ou não na sua lista de viagens. Está lançado o desafio!

O que ganhamos sendo vítimas?

Ontem, dia 11 de março de 2014, “comemoramos” o décimo aniversário da explosão de quatro trens na cidade de Madri. Naquele 11 de março de 2004 – conhecido como 11-M -, quase 200 pessoas foram vítimas mortais do pior atentado terrorista da Espanha, um país que durante muitos anos sofreu com os fortes ataques da banda terrorista ETA (que pelo visto não teve nada que ver com o 11-M).

Vendo a intensa cobertura midiática dos atos e homenagens em memória dos falecidos, só fui capaz de pensar nas consequências dessa triste saturação informativa. Entrevistaram os familiares dos falecidos e tantas outras pessoas que, embora não tenham perdido um conhecido, amigo ou familiar naquela ocasião, tinham algo que contar sobre o que estavam fazendo no momento em que aqueles trens explodiram antes de chegar à estação central de Atocha.

Observei com curiosidade quais eram as pessoas mais solicitadas pelos meios de comunicação e não me surpreendeu comprovar que na lista dos personagens mais imporantes do dia estavam os representantes das associações de vítimas e os políticos. O discurso das vítimas reforçava o vitimismo e o discurso paternalista dos políticos também o incentivava. No fim das contas, o dia de ontem ganhou a medalha dos pobres sofredores que não recebem e não vão receber nunca toda a atenção que merecem.

Não pude evitar pensar no que podemos ganhar sendo eternamente vítimas. Não digo que não seja necessário ou que se proíba recordar as barbáries do passado. Neste caso estou de acordo com Adorno e Horkheimer, autores da teoria crítica da comunicação: é preciso falar do passado funesto da humanidade para que não se repita. Porém, não creio que o monotema vitimista seja saudável. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

Está certo que pessoas que se levantam todos os dias e se vestem de vítimas conseguem chamar a atenção da sociedade e, se a insistência é tanta, podem até conseguir que os habitantes de um país inteiro também se vistam assim. Com isso, as associações de vítimas, por mais contraditório que pareça, se fortalecem graças à fraqueza dos próprios cidadãos.

Minha maneira de protestar contra essa situação foi publicar um tweet dizendo que a melhor forma de vencer o inimigo é demonstrando ser mais forte do que ele. Neste caso, demonstrando que somos capazes de superar os traumas do 11-M. Claro que o meu tweet não teve nenhum sucesso (salvo por um corajoso fotógrafo que me dedicou uma estrelinha de favorite). Porque o sucesso estava nas mensagens que apoiavam as vítimas e que também afirmavam que todos somos vítimas. Este é o discurso politicamente correto.

O problema de gritar aos quatro ventos todos os dias que somos vítimas é que nunca poderemos ser outra coisa além disso. Uma vítima de terrorismo procura obter um apoio externo, da sociedade, dos políticos; procura conseguir o reconhecimento de todos por ter sofrido, por estar sofrendo e por assumir de corpo e alma que continuará sofrendo a vida inteira, porque isso é ser vítima. Levantar a cabeça, sacudir a poeira e dar a volta por cima não é uma atitude de vítima. Superar os problemas não é uma atitude de vítima.

Os próximos 11 de março (ou de setembro) deveriam ser recordados e comentados com todo o respeito, sem espetáculos e sem discursos oportunistas. É preciso recordar, e não reviver. É preciso educar, e não saturar. É preciso superar, de uma vez por todas, porque um país de vítimas nunca será outra coisa além disso: um país de vítimas.

O que vai ser dos violões sem o Paco de Lucía?

violaoÀs vezes a vida parece tão efêmera… 66 anos de história da melhor música flamenca e dos melhores sons da “guitarra española” já são História. Ontem, 26 de fevereiro de 2014, Paco de Lucía deixou o mundo tão vazio quanto um violão sem corda. Aos 66 anos, aquele coração que batia com um ritmo mais marcado que um metrônomo pediu trégua.

Tive o privilégio e o prazer de vê-lo tocar no Teatro Real de Madri. O público estava maravilhado, deslumbrado e completamente seduzido pelos dedilhados que só um Francisco Sánchez Gómez (ou Gomes, porque sua mãe era portuguesa) era capaz de reproduzir. Imersos naquela atmosfera musical incomparável e indescritível, por mais que abríssemos os olhos e os ouvidos, era impossível compreender aquelas notas e aquelas carícias ao violão. Logo percebemos que não era preciso compreender. Era preciso ouvir, sentir e respirar aquela beleza e aquela arte que é muito mais do que a razão humana pode entender.

Amanhã, dia 28 de fevereiro, o Teatro Real de Madri vai receber outra vez o grandioso Paco de Lucía. Desta vez a atmosfera vai ser outra. Mas a vida que já não habita o corpo desse músico tão excelente reside, agora e sempre, em suas composições. Porque Paco de Lucía não é um mero corpo, vivo ou morto. Paco de Lucía é e será sempre o grande mestre flamenco, navegando “Entre dos aguas” pela eternidade.

SERVEMPLEO e as aulas para os desempregados na Espanha

Sexta-feira passada, às 14:25, recebi um SMS de um tal “SERVEMPLEO” com uma espécie de intimação. Sim, na prática é uma intimação, porque dizia que eu tinha que ir hoje, às 11:30, à “Oficina de Empleo” para uma aula. Isso significa que se eu não vou, mesmo sabendo que essa aula não ia ter nenhuma utilidade, já não tenho direito ao seguro desemprego. Falei que era intimação, né? Pois é.

Não pude evitar buscar a palavra “SERVEMPLEO” em Google, para saber se havia alguma informação relacionada com as tais aulas na “Oficina de Empleo” e pelo jeito não fui a única. Como são tantos os desempregados na Espanha, foi fácil encontrar toda a variedade de mensagens que o tal “SERVEMPLEO” manda pelo celular para intimar as pessoas a comparecer aos distintos cursos e aulas que organizam.

Segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014. Às 11:30, uma das pessoas que atendem na área de informação da “Oficina de Empleo” se levanta da sua mesa de funcionária acomodada e mau humorada e pergunta: “quem está aqui porque recebeu um SMS do SERVEMPLEO?”. Éramos umas 15 pessoas, todas mulheres (um dado curioso). Tivemos que segui-la uns dez metros e entramos numa salinha minúscula, com paredes de vidro fosco.

Depois da lista de chamada, a funcionária-professora nos disse que estávamos obrigadas a ir às aulas, porque assinamos um compromisso com o Estado de fazer tudo o que for possível para encontrar trabalho. Isso significa que logo, logo receberemos outro SMS do “SERVEMPLEO” para outra aula tão útil como a de hoje, que era sobre como usar o “portal de empleo de la Comunidad de Madrid“. Quer dizer: como entrar na Internet e, dentro da Internet, como entrar numa página concreta.

O mais interessante da aula foi a dica que a senhora nada amável nos deu para encontrar trabalho. Ela explicou que os profissionais espanhóis estão muito bem valorizados fora da Espanha. Por isso, a melhor opção é buscar trabalho fora do país. Que solução mais inteligente! Como não pensei nisso antes? Essa é mesmo uma ótima estratégia para diminuir o número de desempregados de um país. Quem sabe é esse o plano do Rajoy para melhorar a imagem e a credibilidade econômica da Espanha? Mas o que o Rajoy não sabe é que essas pseudo-aulas são muito mais reveladoras que uma simples visita a uma página web qualquer. Cuidado, Rajoy!

“House hunting” em Madri

Uma das coisas mais difíceis na organização de uma longa viagem a outro país é, sem dúvida, encontrar um lugar para morar. Em Madri, a opção mais prática até agora era contar com o auxílio de algum conhecido para que nos ajudasse a encontrar uma kit-net para alugar ou buscar na Internet os melhores anúncios, nem que fosse para compartir apartamento com gente que não conhecemos, como foi o meu caso. Ah, se em 2007 existisse um serviço de “house hunting”…

Ontem, lendo outra vez o jornal El Mundo (é que a versão impressa é gratuita na universidade), qual foi a minha surpresa? Sim! Agora Madri já tem esse serviço. O “house hunter” é um jovem franco-britânico chamado Pierre-Alban Waters. Aos 28 anos, ele abriu a empresa Moving2Madrid, que também tem página no Facebook. Sua filosofia de trabalho é bem interessante:

We are not “seller” agents – we are on your side, and have been through this personally before as we are all foreigners.

Ninguém melhor para entender as necessidades de um imigrante que outro imigrante. Sua equipe trabalha com compra-venda e também com aluguel. Depende da intenção e das prioridades do cliente.

Devo confessar que a parte dessa história que mais me emocionou foi quando descobri que eles ajudam os imigrantes com a papelada. Isso é realmente fantástico. Não sou capaz de imaginar a qualidade de vida que eu poderia ter experimentado se alguém tivesse me orientado para conseguir o “Número de Identidad de Extranjero”, o famoso NIE. O sinuoso, incerto e tenebroso caminho para consegui-lo está descrito aqui no blog (A saga do NIE). Terrível…

Agora está mais fácil vir morar na Espanha, principalmente em Madri. Contar com a boa vontade dos conhecidos é sempre uma alternativa, mas não convém abusar. Ainda mais quando já existe no mercado um serviço específico para estrangeiros. Boa notícia!

Trabalhar na Espanha

Você já pensou alguma vez em tentar encontrar trabalho fora? Mesmo que a idéia seja ir a outro país para estudar e, ao mesmo tempo, procurar uma atividade remunerada para ajudar a pagar as despesas da viagem. Na verdade, isso foi o que eu fiz, já que o plano inicial era fazer o mestrado na Espanha e, se tudo desse certo, o doutorado também. Essa história teve um final feliz, porque se o critério para que tudo desse certo era fazer o doutorado, tchan-tchan-tchan-tchan: já está feito! E, no meio do caminho, consegui algumas bolsas na universidade. E este é o tema de hoje:

Como conseguir trabalho na Espanha?

A resposta não é fácil. Poderia começar dizendo que depende das nossas prioridades, mas prefiro começar de outra forma: a experiência de morar, estudar e trabalhar fora é única. A probabilidade de encontrar duas histórias iguais é praticamente nula. Mas uma coisa é certa: conhecer mundo é uma vivência indispensável para ampliar nossos horizontes mentais, romper nossas próprias barreiras e conhecer os nossos limites. Aí é quando a gente descobre que o ser humano é igual em qualquer lugar do mundo, com seus problemas, ilusões, crenças, costumes, etc. Resumindo: morar fora ajuda (e muito) a conhecer a gente mesmo.

Em 2007, Madri ainda era um lugar cheio de oportunidades. De repente, a crise econômica começou a aparecer em todos os jornais. As pessoas começaram a gastar cada vez menos e a economia se estagnou. As empresas começaram a despedir os funcionários, as lojas começaram a fechar, as pessoas começaram a perder seus empregos antes tão estáveis e, conseqüentemente, perdiam o salário, a casa e a dignidade (em casos mais drásticos, também a vida). Este era só o início da queda. O buraco se transformou em um abismo de profundidade incomensurável. No meio da escuridão, a Espanha alcançou a taxa mais alta de desemprego: 27%.

Isso foi em 2013 e, como disse o presidente do governo, Mariano Rajoy, a crise já é coisa do passado. Não entendo muito bem o que significa a palavra “passado” no vocabulário do Rajoy. Será porque agora existe 26% de desempregados. Realmente, Dom Mariano, as coisas melhoraram demais da conta. No meu vocabulário goiano, entre 27% e 26%, a diferença é tão insignificante que a gente continua vendo as lojas fechadas, as empresas funcionando com um número mínimo de funcionários e as ofertas de trabalho são… inexistentes. Para comprovar o estado de saúde da economia espanhola, basta ir um dia a uma “Oficina de Empleo” para ver as filas imensas de gente de todas as idades tentando voltar ao mercado de trabalho. Pelo nome dá a impressão de que lá eles arrumam mesmo o emprego, né? Mas na prática só registram o número de desempregados.

Essa experiência eu também já tive. Depois das três bolsas que consegui na Universidad Rey Juan Carlos (URJC) – duas durante o mestrado e uma durante o doutorado – e dos quase cinco anos dando aula na Facultad de Ciencias de la Comunicación, me disseram que já não podia continuar. Mais ou menos 300 professores da URJC tiveram que abandonar o barco, o que definitivamente não ajuda a diminuir a taxa de desemprego desse país ibérico. Todas as universidades públicas estão em situações parecidas.

Neste exato momento, estou pensando na melhor maneira para enocntrar uma resposta para a pergunta incial: como encontrar trabalho na Espanha? Meus ex-alunos diziam que o jeito é ir para fora, mas eu continuo acreditando que a Espanha merece uma nova chance. Os empreendedores que estiverem dispostos a trabalhar de segunda a segunda e sem férias são bem-vindos. Além disso, convém ir preparando o seguinte:

1. Uma pasta cheia até não poder mais de todos os diplomas de especialização e mestrado, porque só uma especialização ou só um mestrado é pouco.

2. Todas as cartas de referência dos empregos anteriores. Se são de empresas multinacionais, melhor ainda. Agorinha eu explico o motivo.

3. Demostrar todos os conhecimentos possíveis de Internet e redes sociais aplicados ao mundo das empresas e da publicidade, como social media management, community management, product management, SEO, SEM, etc.

4. Outra pasta para os certificados de todos os idiomas possíveis e imagináveis que existam na face da terra. Porém, o mais importante é o inglês. Para ser sincera, é mais importante que o espanhol. Mas tem que ser aquele inglês impecável, quase materno. Aquele inglês que nenhum espanhol é capaz de pronunciar (nem de entender). Por isso é importante a experiência de trabalho numa multinacional. O contraditório é que Rajoy e seus ministros dão um valor exagerado ao inglês quando nem eles mesmos são capazes de pronunciar um simples “nice to meet you”. Nem são capazes, nem tem nenhum interesse em aprender. Mas a mensagem é clara: sem inglês não há emprego (esta frase pode ter muitos sentidos).

Caríssimos leitores, acabo de revelar o segredo de como conseguir trabalho na Espanha. No meu caso, para ser professora universitária, é indispensável o doutorado tanto quanto o domínio da língua inglesa. Se não souber espanhol, não tem problema. Depois de tudo, o principal objetivo para 2014 só pode ser esse mesmo: encontrar trabalho na Espanha!